segunda-feira, 19 de abril de 2010

Croniquinha

Como se ninguém estivesse olhando



Nunca bebi tanto em tão pouco tempo. Tá certo que quando se vai a uma festa open bar o que mais a gente quer é encher a cara, mas apesar de já ter ido a outras centenas de baladas como a do último sábado, essa foi a primeira que estranhei o entrosamento entre meu estômago e a garrafa de vodca.

A aglomeração na mesa de bebidas nunca é das menores, mas estranhamente sempre vagava quando eu decidia me aproximar dos atendentes. Talvez fosse um sinal dos céus de que naquela noite, excepcionalmente, eu merecia encher a cara.

Já havia me esquecido como era olhar para uma pista de dança e sentir o coração pulsar a mil, como da primeira vez em que a gente sai pra balada. A música eletrônica nunca foi a minha preferida, mas naquela noite, depois de notar o poder que o nome “Pontifícia”, colado na parede da Pachá, em São Paulo, exercia sobre mim, me senti uma exímia admiradora do “dance e beba como se ninguém estivesse olhando”.

Na entrada, aquele bando de menina alta, magérrima com saia de cintura alta e pinta de modelo – várias com o nariz incrivelmente “avantajado”, diga-se de passagem – quase me encorajaram a sair correndo rua acima e me jogar na frente do primeiro carro que passasse, mas como eu também estava com a saia da moda e meu nariz empinado é muito bonito para ser depredado sobre um para-brisa, decidi agarrar o braço da Ana, minha amiga, e seguir em frente.

O bar à direita da pista de dança principal me chamou a atenção, instantaneamente. E cedi. Quando dei por mim, já estava rebolando no meio da pista, com o copo na mão, sob o som, antes eletrônico, da bateria da PUC. E me joguei. Me JO-GUEI na balada.

Quando pintou o Black, aquele estilo incrível de música, eu já estava totalmente familiarizada com a galera. Me empolguei até às 5h da manhã recuperando aquela energia de 2004, ano em que minha amiga e eu saímos para a nossa primeira balada juntas.

Azul claro, o céu dava os primeiros sinais de que o mundo amanhecia enquanto a gente se acabava na Pachá. Passamos o braço uma na outra para manter a compostura que só as donas do funk, da tecneira, do Black e do que mais a gente quisesse poderia ter e seguimos rumo ao carro que nos levaria embora. Percebi que a vida tem lá seu valor mesmo que você adormeça com os pés surrados e a maquiagem borrada. E continue dançando, claro, mas nos sonhos, como se ninguém estivesse olhando.

Amanda Campos

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