quinta-feira, 29 de abril de 2010

Croniquinha


Metade

A gente deve fazer o que precisa ser feito, ponto. Não adianta ficar dando murro em ponta de faca, escondendo os olhos para os problemas, dar mais tempo para o que já não tem mais razão. Tentei uma, duas, dez, cinquenta vezes, mas há situações que simplesmente fogem do nosso controle. E eu cansei. Os momentos bons foram inegáveis, admito. Imaginei que jamais existiria no mundo outro alguém que me entendesse melhor do que ele. O cara se tornou meu melhor super amigo, com a ressalva de já ter sido minha paixão um dia.

E as gargalhadas no trânsito? E toda a nossa falta de talento musical enquanto, simplesmente, esquecíamos a fila complexa do Mc Donald’s? E aquele restaurante entre meu trabalho e a casa dele que, de tanto insistirmos, virou o “nosso” restaurante? Posso falar ainda dos porres e da alegria de ter aquele ombro amigo para encostar a cabeça enquanto o mundo rodava? Já é demais, né?

A praia. A incrível praia. A incrível praia e nossa bola rosa de vôlei. A energia que me possuiu naquele feriado. E era ele. Sempre ele que parava cinco minutos para descansar e fingir que havia recuperado o fôlego para jogar comigo todas as 70 vezes que eu chamei. E para correr comigo. E para comer churrasco. Ou ir mergulhar. Ou passar protetor solar. Ou me irritar e me abraçar apertado depois.

Quem mais nesse mundo me deixaria usar um carro novo quando eu sequer sabia qual o barulho de um pneu furado? Quem mais ficaria horas preocupado com um projeto experimental que nem acresceria um 10 em seu currículo escolar? Qual outra pessoa me emprestaria aquele riso menino...quando eu fechava a cara e o expulsava da minha sala?

Infelizmente, as coisas mudaram numa noite dessas, quando o álcool lhe subiu à cabeça. E o ciúme, aquele meu companheirão de todas as horas, se apossou da mão dele. E fez aquele estrago no meu rosto. A partir daquele dia, eu sabia que alguma coisa tinha diminuído, só não havia entendido direito o que.

A gente sabe como lutou para continuar, não é? Mas nunca mais fomos os mesmos desde aquela noite. E tentamos ainda, mas qualquer estresse se transformava no apocalipse ou qualquer grito pelo telefone era antecedido de empurrões, alta velocidade e “nãos”. Dizem que a gente só deve carregar no coração o que foi bom. Eu, que não sou poeta nem nada, não sou capaz de fazê-lo, infelizmente. Hoje, mais uma vez, você me perdeu, e para sempre. Sorte a sua, que não ouvirá mais meus suspiros tristes. Sorte a minha, que já aprendi a ser metade.

Amanda Campos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Textualizando

“Confesso! As vezes tenho vontade de sair por ai destruindo corações, pisando em sentimentos alheios ou sei lá, alguma coisa que me faça realmente merecer esse meu sofrimento no amor.”

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 27 de abril de 2010

Textualizando



Zeo Grau de Libra

Sobre todos aqueles que continuam tentando,
Deus, derrama teu Sol mais luminoso.



O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda distraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.

Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete?” – e outro grunhe em resposta.

Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.

Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que, para pagar o aluguel, dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma.

Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto - olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.

Não esquece do rapaz viajando no ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.

Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.


Caio Fernando Abreu

Musicalizando


Non, rien de rien / Non, je ne regrette de rien / Ni le bien qu'on m'a fait / ni le mal, tout ça m'est bien égal / Non, rien de rien / Non, je ne regrette de rien / c'est payé, balayé, oublié, - je me fous du passé / Avec mes souvenirs, j'ai allumé le feu / mes chagrins mes plaisirs, je n'ai plus besoin d'eux / Balayés mes amours, avec leurs trémolos / balayés pour toujours je repars à zéro / Non, rien de rien
Non, je ne regrette de rien / ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal/ tout ça
m'est bien égal/ Non, rien de rien / Non, je ne regrette de rien / car ma vie, car mes joies / aujourd'hui ça commence avec toi

Non, Je Ne Regrette Rien, Cássia Eller


Não, Eu Não Lamento Nada / não, nada de nada / não, eu não lamento nada / nem o bem que me fez / nem a dor, tudo isso me é indiferente / não, nada de nada / não, eu não lamento nada / está pago, varrido, esquecido / eu me lixo para o passado / com minhas recordações / eu acendi o fogo / minhas aflições, meus prazeres / eu não preciso mais deles / varridos meus amores / com seus tremores / varridos para sempre / Eu recomeço do zero / Não, Eu Não Lamento Nada / não, nada de nada/ não, eu não lamento nada / nem o bem que me fez / nem a dor, tudo isso me é indiferente / Não, nada de nada / não, eu não lamento nada / porque minha vida, minhas alegrias para hoje começam com você

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Croniquinha


E aí?

Nem travesseiro, nem colo de mãe, nem ombro da irmã ou bebedeira com as amigas: nada conseguiria arrancar essa COISA que se alojou no meu peito hoje. Os antes sonhados finais de semana se transformaram numa somatória vulgar da minha vida sem aqueles olhos, resquícios de barba e cabelos grandes. Eu tinha até esquecido como era sofrer com a ausência de alguém.

Tá certo que o terrorismo começa no final de semana, mas a segunda-feira, já odiada por meio mundo, se tornou, para mim, uma amostra repugnante de como é difícil enfrentar uma série de dias sem ter ânimo para levantar da cama, se maquiar e interagir com outras pessoas. Tento me convencer de que sou maravilhosa demais para passar por isso, mas depois de 22 tentativas, acabo desistindo – ô numerosinho de merda!

Analiso minha vida constantemente. Acho até que vou mudar de profissão. Mas ainda sim a lembrança daquela velha jaqueta parada no portão de casa ainda me enche os olhos. E passo o sábado sozinha na sala, esperando ouvir uma buzina que nunca vai soar próxima à minha calçada. Aquela COISA que comprime meu estômago e a garganta não me larga nem com reza. E olha que ultimamente tenho rezado bastante.

Às vezes é pra sofrer mesmo, né? Dizem que a gente amadurece quando passa por bons perrengues. E esse é, sem dúvida, um dos maiores. Tardios, mas ainda assim, um dos maiores. O problema é que tá difícil superar. E quem disse que a COISA vai embora quando você sai pra dançar? Quem disse que a COISA monstruosa diminui quando a gente bebe? Não tem jeito. Acho que não tem mais saída. Recorro àqueles que podem me ajudar, mas nem isso ajuda.

Outro dia li que "bilhetes guardados no fundo das gavetas contariam a outra versão da nossa história, caso viessem a público". Talvez a Martha Medeiros tenha razão, embora os meus bilhetes já saíram da gaveta há muito tempo. E aí? O que acontece agora?!

Amanda Campos

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Textualizar


"Amor é quando você acha que a pessoa com quem você se relacionava era egoísta, possessiva e infantilóide e isso não reduz em nada a sua saudade, não impede que a coisa que você mais gostaria neste instante é de estar tocando os cabelos daquela egoísta, possessiva e infantilóide.

Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres."

Martha Medeiros

terça-feira, 20 de abril de 2010

Textualizando


"Não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos e ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo está bem, os hematonas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem."


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Croniquinha

Naquela segunda



Ah, com aquele sorriso ele me ganhou. Imagine só: você fica quase dois meses sem ver o cara e de repente ele aponta na esquina, de pólo vermelha, calça jeans, pele morena e mais magro do que quando te deixou. É, talvez a distância e o sofrimento embelezem mais as pessoas. Se bem me lembro, foram em duas ou três ligações que a conversa deu espaço ao choro desde que ele se fora.

E naquela segunda-feira, justo naquela maldita segunda, ele resolveu voltar. O dia, que havia começado com uma reunião pauta interminável, terminou com uma agradável discussão sobre como a Amanda já podia decidir, por ela mesma, se ia ou não para a aula de francês.

Cada palavra que ele dizia, cada saquinho de pipoca que me comprou só para fazer um mimo, ia me reconquistando lentamente. E como eu amava aquele homem, Deus do céu. Amava porque ele é a típica pessoa que faz de tudo para ser agradável: prepara almoço, jantar e café da tarde, compra os pães mais branquinhos e fofos que encontra na padaria, conserta a lâmpada do meu quarto e ainda adoça o suco de limão com a mesma paciência que torna a minha vida ainda mais doce.

Não que ele seja perfeito. Ele está bem longe disso, aliás. No domingo mesmo, porque eu não respondi a uma de suas provocações, ele soltou os cachorros. Disse que eu era perigosa e fazia tempestade num copo d’água, além de chorar incessantemente quando algo não acontece do jeito que eu planejo - eu, perigosa?!

O fato é que, depois de saber que ele me levará para o ponto de ônibus pela manhã ou simplesmente estará no portão quando eu chegar cansada do trabalho já me são de um alento grande, mas tão grande, que chega a arrancar lágrimas dos olhos – é, eu realmente choro demais. E só de lembrar que ele desceu a rua com os braços abertos para me abraçar, eu já ganhei o dia, a semana, o mês...o ano!

Como foi bom saber que aquele homem maravilhoso apontou na esquina, no centro da cidade, apenas para dizer que sentiu falta da filha mais mal criada e resmungona que ele tinha!

Amanda Campos

Musicalidade

Não se reprima


Canta, dança, sem parar / Sobe, desce, como quiser / Sonha, vive, como eu / Pula, grita / Não segure mais os seus instintos porque isso não é natural / Sai do sério para aprontar um grito forte quando queira gritar / É saudável, relaxante, recupera e faz bem a cabeça / Por isso canta, dança, grita / Vá em frente entre numa boa porque a vida é uma festa / Não controle, não domine, não modere, tudo isso faz muito mal / Deixe que a mente se relaxe / Faça o que mandar o coração / Por isso canta, dança, grita / Não se reprima, não se reprima, não se reprima/ Chega de fugir, de se esconder e de deixar a vida pra depois / Não precisa mais o mundo vira, o tempo corre, nada vai te esperar / Entra de cabeça nos teus sonhos, só assim você vai ser feliz/ Dança, canta sobe, desce

Tatiana Parga

Croniquinha

Como se ninguém estivesse olhando



Nunca bebi tanto em tão pouco tempo. Tá certo que quando se vai a uma festa open bar o que mais a gente quer é encher a cara, mas apesar de já ter ido a outras centenas de baladas como a do último sábado, essa foi a primeira que estranhei o entrosamento entre meu estômago e a garrafa de vodca.

A aglomeração na mesa de bebidas nunca é das menores, mas estranhamente sempre vagava quando eu decidia me aproximar dos atendentes. Talvez fosse um sinal dos céus de que naquela noite, excepcionalmente, eu merecia encher a cara.

Já havia me esquecido como era olhar para uma pista de dança e sentir o coração pulsar a mil, como da primeira vez em que a gente sai pra balada. A música eletrônica nunca foi a minha preferida, mas naquela noite, depois de notar o poder que o nome “Pontifícia”, colado na parede da Pachá, em São Paulo, exercia sobre mim, me senti uma exímia admiradora do “dance e beba como se ninguém estivesse olhando”.

Na entrada, aquele bando de menina alta, magérrima com saia de cintura alta e pinta de modelo – várias com o nariz incrivelmente “avantajado”, diga-se de passagem – quase me encorajaram a sair correndo rua acima e me jogar na frente do primeiro carro que passasse, mas como eu também estava com a saia da moda e meu nariz empinado é muito bonito para ser depredado sobre um para-brisa, decidi agarrar o braço da Ana, minha amiga, e seguir em frente.

O bar à direita da pista de dança principal me chamou a atenção, instantaneamente. E cedi. Quando dei por mim, já estava rebolando no meio da pista, com o copo na mão, sob o som, antes eletrônico, da bateria da PUC. E me joguei. Me JO-GUEI na balada.

Quando pintou o Black, aquele estilo incrível de música, eu já estava totalmente familiarizada com a galera. Me empolguei até às 5h da manhã recuperando aquela energia de 2004, ano em que minha amiga e eu saímos para a nossa primeira balada juntas.

Azul claro, o céu dava os primeiros sinais de que o mundo amanhecia enquanto a gente se acabava na Pachá. Passamos o braço uma na outra para manter a compostura que só as donas do funk, da tecneira, do Black e do que mais a gente quisesse poderia ter e seguimos rumo ao carro que nos levaria embora. Percebi que a vida tem lá seu valor mesmo que você adormeça com os pés surrados e a maquiagem borrada. E continue dançando, claro, mas nos sonhos, como se ninguém estivesse olhando.

Amanda Campos

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Croniquinha

Sempre soube



Então você promete que nada mudou? Sim, eu sei que esse tempo todo só serviu para contabilizar o quanto é possível suportar a falta que a gente faz um pro outro. Agora jura que naquele dia você estava sendo irônico quando disse que nunca sentia minha falta! Não, to falando sério! Jura, vai! Ah, eu sabia que você estava tentando me enganar. Sabe, na hora que li aquilo até ri, não consegui me controlar. Até comentei com a senhora sentada no ônibus ao meu lado “Olha só ‘tia’ como ele é sarcástico. A senhora também acha que ele está mentindo?! Tá na cara, não tá? ”.

Concordo. Não, tô falando sério, você realmente não merecia ouvir as coisas ridículas que eu te falei naquela domingo a noite, mas você estava distante, serviu para te acordar. Aliás, aquele dia serviu também para me mostrar como as noites de domingo foram feitas para nós dois. Acredita que até o sofá da sala reclamava seu nome aos finais de semana? Não, claro que ninguém mais sentou nele. E não, não beijei nenhum daqueles surfistas malhados que estavam no meu orkut. Pelo contrário, eu quase não fui à praia. Ninguém mais se preocupava em passar protetor solar no meu rosto...

Ah, saí algumas vezes. Ok, eu confesso, saí MUITAS vezes, mas só pra perceber o quanto o mundo anda cheio de pessoas vazias. Nossa, nem me fale nos casais idiotas que brigam por coisas idiotas e voltam para casa se sentindo vulgares por terem falado tantas idiotices num curto intervalo de tempo. Juro, juro que isso nunca mais vai acontecer com a gente. Ah, não acredito que você comprou meu lanche favorito. Prometo! Já disse que prometo, pra que jurar? Eu juro, eu juro, mas nada de cócegas! Juro que nós nunca mais vamos nos separar.

Você estava morrendo de saudade desse meu jeito irritado? Não acredito! Eu sabia...sabia! O que? Andou vendo os preços em imobiliárias? Mas por que, se nem sabia que daríamos certo novamente? Ah é? Você sempre soube isso? Então a gente muda apenas as prioridades: deixarei meu jardim com orquídeas e balanço em segundo plano para que você construa seu quarto de música no futuro apartamento. Realmente é mais barato. Hei, agora é minha vez de revelar o que EU sempre soube. Chega mais perto! Não você, só o ouvido, bobo! Fecha os olhos...eu também sempre soube que seria sua pra sempre!


Amanda Campos

Musicalidade

Palavra de mulher


Vou voltar/ Haja o que houver, eu vou voltar / Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás / Palavra de mulher, eu vou voltar / Posso até sair de bar em bar, falar besteira e me enganar / Com qualquer um deitar a noite inteira / Eu vou te amar / Vou chegar a qualquer hora ao meu lugar / E se uma outra pretendia um dia te roubar / Dispensa essa vadia / Eu vou voltar / Vou subir a nossa escada, a escada, a escada, a escada / Meu amor, eu vou partir / De novo e sempre, feito viciada / Eu vou voltar / Pode ser que a nossa história seja mais uma quimera / E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar / Pode ser que passe o nosso tempo como qualquer primavera / Espera / Me espera/ Eu vou voltar

Chico Buarque

Musicalidade

Conselho


"Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça. É inútil dormir que a dor não passa. Espere sentando ou você cansa, está provado, quem espera nunca alcança. Venha, meu amigo, deixe esse regaço. Brinque com o meu fogo. Venha se queimar. Faça como eu digo. Faça como eu faço. Aja duas vezes antes de pensar. Corra atrás do tempo. Vim de não sei onde. Devagar é que não se vai longe. Eu semeio o vento, na minha cidade. Vou para a rua e bebo a tempestade."

Chico Buarque

Textual


Querida amiga,

Eu sei que não está sendo fácil, porque já passei por isso também. Tá doendo? É claro que dói, é difícil desfazermos todos os planos e expectativas que criamos; sei também que você ainda quer aquilo de volta, mas quer um conselho? Vá cuidar da sua vida. Não fique gastando tempo ou energia tentando entender o porquê do sumiço dele, ou porque ele não queria nada sério (com você, é claro). Não vale a pena, assim como também não vale a pena ficar tentando ser amiga ou manter contato, não dá certo, e na verdade você não quer ser só amiga, não é mesmo?

Se você está com vontade de falar 'poucas e boas pra ele' ou simplesmente perguntar o motivo que levou ele a tomar tal atitude com você, pense MUITO bem antes de fazer tal ato deprimente. Sim, mendigar afeto é a pior coisa que existe! A melhor coisa para se fazer é cortar relações. Sim suma! Apague mensagens, fotos, cartas, históricos. Crie um novo msn ou o delete, sei lá. Apenas não fique a mercê de recaídas e sofrimentos à toa.

Se depois de tudo isso você continuar sentindo nostalgia dos tempos de obsessão, relaxe: isso é carência. Vá correr, comer chocolate, encha a paciência de suas amigas ou chore, chorar faz bem, alivia a alma. Mas pare de escutar aquelas músicas deprimentes que você escuta. Mesmo que agora tudo pareça sem sentido, com o tempo você vai perceber que foi a melhor coisa que te aconteceu.


- Dica de leitura: www.scribd.com/doc/2714332/ELE-SIMPLESMENTE-NAO-ESTA-A-FIM-DE-VOCE-Greg-Behrendt-e-Liz-Tuccillo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Textual


"Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: Porque era ele, Porque era eu."

Michel de Montaigne

Textual


"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acupuntura, suicídio, ioga, dança, natação, Cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito. Agora o que faço?"

Caio Fernando Abreu

Textual


"Porque é tão mais fácil aturar a vida sabendo que tem você. Agora sem você, meu amigo, a coisa é feia. Realmente feia."

Caio Fernando Abreu

Croniquinha

A idiotice alheia

Confesso que ao sentar diante da minha mesa, percebi que estava mais triste do que em qualquer outro dia do ano. Mas desta vez, triste por você. Fiquei ali me perguntando que outra mulher suportaria sua indiferença e ainda assim não deixaria de admirar o homem que você esconde atrás dessa fortaleza inventada.

Você não percebe que está se perdendo em meio às opções que as prateleiras da vida te oferecem. É tanto produto vencido, sem cor ou sofisticação, que você não sabe mais apreciar qualidade. Você acabou esquecendo como vale a pena acordar ao lado de alguém que procura teu pé para esquentar a noite e reclama, de madrugada, por não sentir o conforto do teu abraço. Você não sabe como essa sensação é muito melhor do que acordar com a ressaca das coisas vazias que preenchem meu espaço.

Sabe qual era a minha vontade? Segurar seu rosto e decretar que você fosse esperto o bastante para não me deixar escapar. Que pudesse entender como ainda poderíamos ser felizes juntos. Porque é inegável como a gente se diverte, seja num restaurante de rodoviária ou num bar sofisticado. Quando você está cansado do mundo, é na minha mania de rir que você encontra forças. E, quando está rindo do mundo, encontra chão na minha loucura. E quando está bebendo com seus amigos, é o meu número que você disca para dizer que ainda sente saudade. E eu passei bons tempos falando aos sete ventos como você era encantadoramente especial, mas quer saber? Cansei!

Que ruflem os tambores porque hoje, especialmente, descobri que você é só um cara muito idiota. E que você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares em que procura. E não me sinto fraca por você afirmar, dia após dia, o quanto é feliz sem mim, contrariando o que diz a maioria das pessoas a sua volta, porque eu sim respondo pelos meus sentimentos.

Hoje me tornei alguém que não precisa mais provar seu valor para os outros, porque eu sei exatamente meus pontos altos e baixos. Hoje eu parei de me sentir culpada por não ter mais você ao meu lado e senti pena porque quem vai demorar mais para superar essa ausência diaria é você! Uma pena...


Amanda Campos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Croniquinha

Teatralizando



Acho que deixei cair alguma coisa enquanto ensaiava a cena desta semana. Tenho dúvidas se deixei para trás, entre um término de apresentação e outro, o orgulho que costumava carregar enquanto as cortinas não se fechavam. Essa história já começou torta mesmo, escrita por autores inexperientes sem a veia artística do restante da companhia.

Já sem fôlego, nós, protagonistas, deixamos o talento sentimental de lado para recorrer às antigas máscaras teatrais. No meu rosto, a da alegria é tristemente exposta enquanto, no teu, o mesmo sorriso se tornou indispensável. É bom ter uma camada de gesso na cara para proteger o público da nossa tristeza.

A voz quase não sai mais porque a lembrança do seu sorriso, cabelos e frieza ainda me sufocam. Incapaz de ser aquela atriz inteira, saio de cena perdida. Você ainda continua tão livre que chega a doer. E contracena com atrizes experientes enquanto me mantém na coxia, parada.

Caminho por este palco inchada, cheia de emoções prontas para serem distribuídas aos espectadores. Mantemos a prosa sem poesia para que a rima não torne piegas esta história. Uma história que começou com a necessidade de se tornar inteira, e terminou pelo mesmo motivo.

Você me dedica uma nova cena favorita de palavras sem teor raramente sentimental. E mesmo assim, sou amparada pelo ceticismo do narrador. Uma redação com margem, tamanho e estilo colocados especialmente para você. Um diário sem limites para mim. Você continua vagando por caminhos desconhecidos. Eu fico por aqui. Você continua encenando sua história errônea, sem palavras, títulos e direção. E a minha companhia continua sem ator principal.


Amanda Campos

Textual


"- É verdade que os amores eternos nunca morrem?
- É. Ou não seriam eternos.
- Mesmo que a pessoa esteja longe de você?
- Mesmo que a pessoa esteja longe de você ela estará mais perto do que você pensa.
- E como sabemos que aquele amor é eterno?
- Não sabemos. Até um dia.
- O dia em que ele vai embora?
- É. O dia em que ele vai embora, mas nunca parte."

Fábio Fabretti

Croniquinha

De todas as horas



Deitar pra dormir se tornou uma tortura. Não que eu tenha algum problema com a porcaria da lâmpada queimada do meu quarto - que estranhamente ninguém consegue consertar- ou com o barulho das unhas da Nina, minha gata, sob a porta. O lance é que a lembrança da cor daqueles olhos não me deixa pegar no sono serenamente, como qualquer pessoa normal. É eu sentar na cama para acertar o despertador ou simplesmente abrir o guarda-roupa para pegar os lençóis que o filme de nossas vidas começa a rodar.

Não que eu esteja fazendo drama sobre um romance que não tem mais razão de ser - e que mal teria se eu o fizesse? Ainda assim, a lembrança daquela porcaria de homem não me larga nem quando fecho os olhos. O ruído do silêncio impera no quarto, no corpo, na alma e impregna em todos os cantos da cama. E aí a ladainha começa: a porcaria do coração dispara, os calafrios correm loucos pela minha espinha dorsal e as borboletas voltam a jogar futebol no meu estômago.

A situação é tão cansativa que não tenho mais forças para lutar contra ela. Ando meio cansada de encenar a moça feliz e forte que consegue conviver com o amor. Tenho medo de me perder num personagem de sorriso expressivo e ganhar um de olhos distantes. Penso seriamente em armar um plano para acabar com a raça de todos os casais lindos e felizes que me aparece pela frente. Isso é normal? Hein? Tô ficando maluca, não estou?!

Coisa chata andar pela rua e ver seres humanos de dedos entrelaçados e carinhos explícitos! Já falaram pra eles que amor acaba? Que ele NÃO É suficiente para manter um romance? Preciso ocupar a mente e começo a pensar na balada. Enquanto escolho o vestido mais curto, o salto mais alto e a melhor maquiagem, olho pras paredes do quarto e debocho. Cadê ela? Cadê a melancolia de sempre? Hoje eu escapo da senhora! Desta vez você não vai sugar minhas alegrias e me deixar com a sensação de que eu tenho as piores qualidades do mundo.

Daí eu chamo umas amigas pra arrasar na pista de dança. Daí rebolo olhando de lado para saber quem vai chegar em mim primeiro. Daí me preparo para rir com o sonoro “não” que distribuirei na noite. E bebo até começar a rir da luz néon que, estranhamente, só aparece pra mim. Daí eu sento a bunda no banco do passageiro e volto pra casa com os ouvidos zunindo, o estômago na sola do pé e o pensamento vago, sem condições de discutir a relação com a minha companheira melancólica de todas as horas.


Amanda Campos

terça-feira, 13 de abril de 2010

Musicalidade

A Bailarina e o Soldado de Chumbo


De repente toda a mágica se acabou / E na nossa casinha apertada tá faltando graça e tá sobrando espaço / Tô sobrando num sobrado sem ventilador / Vai dizer que nossas presses não alcansaram o céu? / Coração que ainda vem me perguntar o que "conteceu" / "Contece" seu rosto por acaso ainda tem o gosto meu / Com duas conchas na mão vem vestindo ouro e poeira / Falando de um jeito maneira da lua, da estrada e de um certo mal / Que agora acompanha seu dia e pra minha poesia é ponto final / É o ponto em que recomeço, recanto e despeço da magia que acompanha o mundo / Bailarina, soldado de chumbo / Bailarina, Soldado de chumbo / Beijo e dor / Bailarina e Soldado de chumbo / Nossa casinha pequena parece vazia sem o teu balé / Sem teu café requintado soldado de chumbo não fica de pé / Nossa casinha pequena parece vazia sem o teu balé / Sem teu café requintado soldado de chumbo não fica de pé


O Teatro Mágico