Num sonho
Por mais cedo que eu acorde, estou sempre bem humorada. No café da manhã como pão, queijo, bolo, bebo suco de maracujá e, sem esforço, mantenho meus 52 Kg. Moro numa cobertura em frente ao mar azul em algum lugar da Europa e assisto, da minha poltrona macia e flexível, o nascer do sol abraçada ao meu marido alto, de porte atlético e com sotaque.
Entro no meu Mercedes branco, conduzido por Rodrigo Santoro (meu motorista), e chego, invariavelmente, à Avenida Paulista em cinco minutos, para trabalhar na minha editora super famosa. Como dona e diretora, meus veículos jornalísticos (jornal e revista) são bem administrados, conceituados e, especificamente a revista, voltada aos leitores de cultura, política e bichos, me rende ainda patrocínio para uma ONG que defende os animais de maus-tratos.
Meu livro de contos foi lançado há um mês e já está entre os mais vendidos da história do Brasil, a ONG conseguiu auxilio financeiro internacional e meus pais choram de satisfação toda vez que ouvem meu nome.
Atrás da minha editora foi criada uma instituição de saúde maravilhosa, com maravilhosos profissionais, seguindo um maravilhoso programa federal contra doenças que acometem idosos e crianças, onde meu marido ganhou, em um ano, dinheiro suficiente para ficar em casa ou atuar, esporadicamente, no que gosta.
A Nina, minha malvada gata siamesa, tomou uma vacina que a fará viver por mais 90 anos, deixou seu pêlo anti-alérgico e todas as vezes que ela faz xixi ou cocô, faz com que eles evaporem e se tornem um pozinho com cheiro adocicado.
Tenho quatro filhos lindos que nasceram de parto normal sem provocarem dor nem traumas. Todos vieram acompanhados de 80 anjos da guarda que nunca permitem que eles sofram acidentes ou façam amizades erradas. Eles amam verduras,
south music e jamais pegam gripe.
Meus seios naturais, redondos e cheios, acompanhados das coxas durinhas e bumbum arrebitado, fazem as pessoas admirarem, respeitosamente, minha beleza mesmo sentada, enquanto eu dirijo meu
New Beatle vermelho com bancos de couro branco conversível ouvindo Amy Winehouse que, obviamente, se livrou das drogas. Faço isso pelo menos duas vezes por semana, quando o Rodrigo me pede folga para malhar ou filmar em algum lugar incrível.
As festas nunca começam antes de eu chegar, meu relacionamento é liberal - só para o meu lado- e o dinheiro nunca acaba. Não tenho olheira, meu rosto produz ruge e batom naturais, não preciso me depilar e as pessoas hipócritas com as quais convivi por anos foram transferidas para um lado do planeta onde mulheres lindas, bem sucedidas e com
New Beatles não entram.
Amanda Campos