sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Textualizando


"(...) Sorria como a moça da mesa ao lado, coloque um montinho de cabelo atrás da orelha, alongue um pouco o pescoço. Seu olhar está perdido porque pra poder estar naquela mesa ela foi matando pouco a pouco sua ferocidade. Mas ela toma chá e sorri. E você? Você mais uma vez vai voltar cheia de razão e sozinha. Cheia de tudo que não esquenta o pé. Cheia das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando "ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance".

Tati Bernardi

Textualizando


Talvez

"Porque seus olhos são azuis e dá vontade de mergulhar. E eu não gosto de me sentir fraca. E porque quanto mais friamente eu agia, mais doce você era e isso me quebra, me derrete toda, não posso aceitar. E porque seria muito interessante saber o que é uma relação de verdade num momento como esse. Eu consegui imaginar minha família te conhecendo, isso pode ser um sinal. De fraqueza ou de destino, eu não sei.

Existe mesmo essa coisa de destino? Porque os nossos se cruzaram e talvez isso tenha algum significado. Você quis ver através de mim e eu não deixei. Pedi pra parar de me olhar nos olhos, como sempre faço e você se esforçou muito pra compreender e pra estar comigo desse jeito, fingindo não estar. Não tente entender. Tem a ver com Édipo, tem um pouco de vergonha, tem a ver com seus olhos claros, com seu sorriso perfeito, com as linhas do seu rosto.

Uma parte é medo da entrega, mas tem também uma lembrança do dia em que eu te conheci, bem antes de você me conhecer. Talvez seja a dúvida entre manter a solidão ou arriscar a vida de outra maneira. Pode ser. E pode ser que toda essa história tenha se desenvolvido nos dois segundos em que eu fechei os olhos e não precisei abrir pra saber que você estava lá."


Veronica H.

Croniquinha



Em movimento

Prédios. Prédios espelhados, antigos, modernos. Nossa, olha aquele sacada...eu quero morar num prédio assim, com sacada espaçosa. Vou colocar uma mesa redonda e quatro cadeiras. Não, não. Uma rede. Isso. Rede espaçosa, uma esteira confortável e uma mesinha antiga para guardar os livros que vou ler ali. E as roupas, quando a noite estiver excessivamente quente.

Nossa, que parque mais bonito. Quantas lojas e avenidas movimentadas. Olha ali, um carro preto. Adoro aquela marca. Depois do New Beatle mostarda com bancos de couro brancos, eu adoraria pegar um desses. Ih, tá entrando no motel. Nossa, há quanto tempo não vejo um carro num motel. São tantas opções de entretenimento sexual que...meu Deus. É aquele. Aquele motel. Nossa, e eu batendo a cabeça para lembrar o endereço. Hoje passo pela fachada sem ter a menor intenção.

Não. Não! Estávamos indo tão bem. Eu estava imensamente feliz por ter tirado meu passaporte. Não quero ver nada que me lembre ele, poxa. Deus, por favor, hoje não. Ótimo. Passamos dessa avenida. Nossa, quanta gente engravatada. Olha lá o gatinho olhando pra mim. Nem vou olhar de volta. Vai que ele acha que to dando mole, né? Pô, sapato bonito. E a mochila...puta que pariu. A mochila é da Adidas. É o mesmo modelo que eu escolhi para ele. Poxa Deus, achei que a gente tinha um trato, né?

Ok, ok. Passou. Objetos em movimento. Velocidade. Olha lá onde eu trabalhava. Nossa, quanta saudade daquelas pessoas. Que tempo bom. Aqui tem uma clínica. Nunca tinha reparado. Olha, dentista. Poderia tirar meus dois dentes do ciso aqui. Preciso fazer isso antes de viajar. Será que a viagem vai me fazer o bem que eu quero? Bem que ele poderia aparecer por lá. Já pensou? “Hi. I want to talk to Amanda. I came from Brazil. I’m her boyfriend, i think.” Tá, eu desisto. Não consigo não pensar nele hoje. Tem dias que todas as coisas me lembram ele.

Aquela velha história do amorzinho de merda, engarrafado. Eu nem desejo mais conversar. As pessoas se preocupam muito com a minha vida e eu não preciso mais disso. Acontece que esses dias estão tortuosos e eu não os desejo mais. Sossego é o que eu quero. Ando tão casada, o coração batendo acelerado quando eu sonho a noite. Porra, o pessoal anda comentando que já faz muito tempo. Eu preciso me acostumar. Preciso superar essa fase. Acho que preciso de uma internação. Terapia. Mãe de santo. Cartomante. Ando triste pra caralho.

Amanda Campos

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Textualizando


"- Às vezes eu sinto falta de mim.
— Eu também.
— Sente falta de si?
— Não, de você. E dói. [Silêncio]
— Me abraça?
— Sempre."

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Croniquinha


Mente cheia de lembranças

Meu aniversário tá chegando. E todos os dias alguém pergunta o que eu quero ganhar. Eu também me pergunto o que eu quero ganhar. Mas sei que o que quero ainda não tem preço.

Tá, se alguém aí me der uma bolsa branca da Puma ou um daqueles vestidos chiquérrimos da Morena Rosa eu ficarei extremamente agradecida. Mas eu quero o abstrato. Eu quero um pacote cheio de novos sonhos, ambições. Quero um punhado de luz para os meus dias turvos. Quero um novo balão de oxigênio, para eliminar minha asma e me dar fôlego novo.

Acho que nesses momentos em que um ciclo está prestes a se completar a gente passa a refletir mais sobre a vida. Eu estava lembrando hoje do filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” – O brilho eterno de uma mente sem lembranças, de 2004. Se existisse um procedimento daqueles eu certamente o pediria de presente. Adoraria deletar algumas situações do meu cérebro. Eu seguramente sou uma dessas “Clementines” que aparecem por aí. Sabe aquelas meninas extremamente alegres que escondem uma sombra no olhar? Pois é.

Eu pegaria a caixinha verde da estante do meu quarto, cheia de cartas antigas, e a jogaria no lixo. Eu nunca mais iria me lembrar daqueles malditos momentos que não me largam. Eu apagaria o dia do samba. Deletaria o som daquela voz me chamando por apelidos fofos. Seria tão divertido imaginar um telegrama chegando à casa de algumas pessoas dizendo “A Amanda realizou esse procedimento e, infelizmente, não lembrará mais de você”. Seria realmente um aniversário perfeito.

Certamente, o enredo do filme seria seguido. E talvez, assim como o Joel, eu me arrependesse de deletar coisas tão memoráveis quanto os momentos que passamos juntos. Mas eu tentaria. Eu iria até o final. Eu veria novamente tudo àquilo que já deveria ter deixado para trás. Talvez eu tentasse desfazer a decisão que tomei, quase irrefutável. Mas eu tenho certeza: iria até o final. Seguiria o enredo até o início, quando eles se conhecem novamente no trem. E para que meu dia 3 de novembro fosse perfeito, tenho certeza que me empolgaria de novo. E entenderia, mais para o final do dia, que a gente não pode fugir de algumas escolhas cerebrais. E riria da minha impulsividade, nos braços do cara que eu amo.


Amanda Campos

Textualizando


"Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei"

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Imagine

Textualizando


"Tem gente que entra na nossa vida de forma providencial e se encaixa naquela história que gosto de imaginar:surpresas que Deus embrulha pra presente e nos envia no anonimato.Surpresas que só sabemos de onde vêm porque chegam com o cheiro dele no papel"

Ana Jácomo

Croniquinha


Em equilíbrio

Ando numa fase tão equilibrada, tão completamente serena que ando estranhando a ausência de nós em meu peito. Claro que uma vida assim tão leve reflete na balança da farmácia e menos na atualização do blog, mas ainda assim, resolvi dar uma pausa na correria do meu dia para refletir sobre a vida.

Talvez seja porque eu descobri que minha mãe já está comprando cremes, perfumes e xampus para a viagem (faltam sete meses!), ou porque eu sei que amo John Mayer e seus solos de guitarra, decidi que hoje é o dia ideal para fazer um balanço da minha vida.

Eu descobri que sou ansiosa. Descobri que preciso controlar meus nervos, ou eles me controlarão num futuro próximo. E com pulso de ferro. Percebi que meus dias de alegria, instalados desde o último dia 11 de outubro, já me tiraram uns gramas. Sabe, a gente passa tanto tempo pensando em uma coisa que esquece da vida que vibra lá fora. E to muito afim de curtir com ela.

Tá, confesso que ainda acho legal lembrar de você. Às vezes, quando subo as escadas rolantes do metrô, respiro aliviada porque acho que superei, que me acostumei com a sua ausência. É até divertido ficar sozinha. Mas basta ver uma mochila parecida com a sua ou um cabelo masculino meio “armado” para sentir o coração vibrar e o estômago, retorcer. Mas ainda acho perfeitamente normal lembrar com carinho que você sempre dava sempre um jeito de me mandar mensagens ou e-mails. Fosse o dia mais feio ou o mais bonito. Era como se dissesse, sem querer dizer, que você sempre estaria ao meu lado.

Também me faz bem lembrar que você quase nunca se alterava. E que as vezes que te vi nervoso foi quando alguém era "deselegante" comigo. Fosse um cara seboso que não tirava os olhos da minha bunda na estação, o motorista folgado que fumava dentro do ônibus ou o pastor que pregava na esquina, olhando feio para o meu decote. E eu achava aquilo tão bonito...eu tenho saudades de mil coisas e todas essas mil coisas sempre caem na mesma única coisa de que eu tenho tanta saudade: seu jeito responsável de ser.

Você me dizia que eu era briguenta demais, mas que adorava meu jeito "esquentadinha" de ser. E me pedia para ser sempre a mesma, ainda que aquele pedido nos remetesse a brigas na balada, no trânsito ou na minha casa. E assim nós seguimos. Tão parecidos em alguns aspectos, tão diferentes na maioria dos outros. Mas numa coisa a gente sempre concordava: ninguém se amava mais e tão intensamente quanto nós dois. E o engraçado era que a gente topava as coisas mais malucas, como ficar se amassando no sofá da minha sala enquanto o pessoal conversava na cozinha ou ficar falando besteira ao telefone até a madrugada.

Eu tenho saudades de tudo. Da gente acordar descabelado, com os dedos doloridos de tanto ficar entrelaçado um ao outro. De rir de coisas bestas, do seu carro, da sua paciência em aturar meus momentos de chatice. Mas esse não é mais um sentimento egoísta. Eu tô lutando para deixar o egoísmo de lado. É apenas saudade. A velha e, agora, boa saudade...

Amanda Campos

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Textualizando




"Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente.

Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão. Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente.Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento.

E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem."


- O que você nunca vai saber - Verônica H.

Imagine

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Textualizando


"- Diga-me uma coisa. Quem partiu seu coração com tanta raiva?
- Vejo que sabe ler mais que livros.
- Sabe o que é bom nos corações partidos?
Neguei.
- É que só podem se partir de verdade uma vez. O resto sao só arranhões.
- Ponha isso no seu livro.
- Não sei quem é esse bobo, mas espero que saiba que é o homem mais feliz
do mundo!

Eulalia sorriu com certa tristeza e fez que sim."

Carlos Ruiz Zafón - O jogo do anjo

Imagine

Textualizando


"Porque amor é justamente isso, é ficar inseguro, é ter aquele medo de perder a pessoa todo dia, é ter medo de se perder todo dia. É você se ver mergulhado, enredado, em algo que você não tem mais controle…"

Fabrício Carpinejar