sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Croniquinha



Em movimento

Prédios. Prédios espelhados, antigos, modernos. Nossa, olha aquele sacada...eu quero morar num prédio assim, com sacada espaçosa. Vou colocar uma mesa redonda e quatro cadeiras. Não, não. Uma rede. Isso. Rede espaçosa, uma esteira confortável e uma mesinha antiga para guardar os livros que vou ler ali. E as roupas, quando a noite estiver excessivamente quente.

Nossa, que parque mais bonito. Quantas lojas e avenidas movimentadas. Olha ali, um carro preto. Adoro aquela marca. Depois do New Beatle mostarda com bancos de couro brancos, eu adoraria pegar um desses. Ih, tá entrando no motel. Nossa, há quanto tempo não vejo um carro num motel. São tantas opções de entretenimento sexual que...meu Deus. É aquele. Aquele motel. Nossa, e eu batendo a cabeça para lembrar o endereço. Hoje passo pela fachada sem ter a menor intenção.

Não. Não! Estávamos indo tão bem. Eu estava imensamente feliz por ter tirado meu passaporte. Não quero ver nada que me lembre ele, poxa. Deus, por favor, hoje não. Ótimo. Passamos dessa avenida. Nossa, quanta gente engravatada. Olha lá o gatinho olhando pra mim. Nem vou olhar de volta. Vai que ele acha que to dando mole, né? Pô, sapato bonito. E a mochila...puta que pariu. A mochila é da Adidas. É o mesmo modelo que eu escolhi para ele. Poxa Deus, achei que a gente tinha um trato, né?

Ok, ok. Passou. Objetos em movimento. Velocidade. Olha lá onde eu trabalhava. Nossa, quanta saudade daquelas pessoas. Que tempo bom. Aqui tem uma clínica. Nunca tinha reparado. Olha, dentista. Poderia tirar meus dois dentes do ciso aqui. Preciso fazer isso antes de viajar. Será que a viagem vai me fazer o bem que eu quero? Bem que ele poderia aparecer por lá. Já pensou? “Hi. I want to talk to Amanda. I came from Brazil. I’m her boyfriend, i think.” Tá, eu desisto. Não consigo não pensar nele hoje. Tem dias que todas as coisas me lembram ele.

Aquela velha história do amorzinho de merda, engarrafado. Eu nem desejo mais conversar. As pessoas se preocupam muito com a minha vida e eu não preciso mais disso. Acontece que esses dias estão tortuosos e eu não os desejo mais. Sossego é o que eu quero. Ando tão casada, o coração batendo acelerado quando eu sonho a noite. Porra, o pessoal anda comentando que já faz muito tempo. Eu preciso me acostumar. Preciso superar essa fase. Acho que preciso de uma internação. Terapia. Mãe de santo. Cartomante. Ando triste pra caralho.

Amanda Campos

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