Fora de lugarComo naqueles pesadelos em que você está caindo e não tem onde segurar, a recaída de amor acontece, desesperadamente e sem querer. De uma hora para a outra, no meio da tarde. Você está lá, sentada no sofá assistindo a um bom filme e se toca: preciso saber! E começa o debate entre você e você mesma. Mas eu já estava bem há semanas. Olhe para o filme, veja que graça os cachorrinhos. Mas não nos falamos há séculos! Eu sei, eu sei. Mas ele não tem nada a ver com você. É petulante, bobo, medroso. Não deu certo. Mas eu preciso saber. Não, não precisa. Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto e subo as escadas correndo.
Ah o Orkut. Tanto tempo para me desinfetar dessa desgraça e lá estão as palavras novamente, piscando para mim. Digito o nome dele. Aparece a foto do perfil. E está tão bonito. Vamos ver. Ele não posta nada há meses, não há recados exclusivos. Que droga! Jogo o nome dele no Google. Aparecem trabalhos, perfis profissionais. Tento o Twitter, mas não há nada. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade para o trabalho estaria rica. Estou motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso tanto saber.
São dez da noite. Estou cansada. Lembro das vezes em que eu olhava o Orkut da sua máquina e você reclamava. Queria atenção total. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem no fundo dos olhos e me beijava daquele jeito intenso. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque ainda são dez da noite, vou resolver isso. Agora preciso dormir.
Vou pra cama. Coração disparado. Não tem posição. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Minha imaginação está a mil, traçando planos mirabolantes para que eu descubra a verdade. Mas a verdade d quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto.
Começo a ligar para algumas amigas. “Você acha que ele está com alguém?” Não sei Amanda, to me arrumando pra sair. Posso te ligar amanhã? “Você acha que ele está com alguém?” Mudando de assunto, Amanda, vamos ao cinema amanhã? Estreou aquele filme de suspense... “Mas você acha que ele está com alguém?” Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? “Então você acha que ele está com alguém?!” Do jeito que ele gosta de você? Claro que não!
Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim. É tão bom quando estamos juntos e tal. Aliás, meu Deus, como eram bons esses momentos. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, dormindo abraçado a alguma vagabunda? Qual o problema? Ok, eu posso conviver com isso. Eu definitivamente posso conviver. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo. Não posso mais conviver com isso!
Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro e saio. Tá certo que o meu destino é alguma balada em São Paulo, mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás dele. Na verdade, vou só fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. Volto pra casa de manhã destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso suspirar bolhas de corações e posso inundar a estação Sé do metrô. Quase não consigo respirar.
Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende, falando baixinho. Você está com alguém? Não. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de palpitações, músicas, textos, amigos, danças, gritos, choros. Agora eu já sei. E daí? Muda o que?
Amanda Campos