
Desperta, Divino!
Andei pensando muito sobre religião ultimamente. Pensando principalmente nas interfaces de Deus em cada uma delas. E mesmo sem ter me encontrado ainda nesse (e outros) aspecto, converso com Ele em vários momentos do meu dia. No metrô, em minha cama, no banheiro do trabalho. Já se tornou um ritual.
Não dizem que fé quando não se tem se inventa? Então. Já inventei a minha. E por diversas vezes. Mas ainda assim, analisei alguns fatos e acho que Deus anda distraído. Não, não estou blasfemando contra o Criador. De forma alguma. Só resolvi escrever este texto para obter mais atenção. Passou da hora de chama-lo para algumas coisas importantes sob meu ponto de vista.
Senhor, quero Lhe pedir um olhar bastante especial sobre o planeta Terra. Especialmente sobre o mendigo que acabei de ver dormindo próximo ao Palestra Itália, aqui na Barra Funda (ali ainda é Barra Funda?). Uma outra olhada generosa, por favor, para as garotas “encoxadas” em todos os transportes públicos - isso deve acontecer em vários lugares, não apenas em São Paulo. Queria também, Deus, que o Senhor derramasse proteção extra aos cachorros sarnentos das grandes metrópoles. Que os pneus do carro derrapem ao tentar pegá-los nas estradas e rodovias. Olha piedosamente para os casais que buscam sentido às relações já terminadas. Dá força à eles.
Deus, olha com amor os solteiros que ainda esperam, com todo o coração, ter de volta amores do passado. Que as distâncias caiam por terra. E os momentos bons se multipliquem no lugar de lágrimas. Derrama também teu olho sobre as crianças criadas em lares gélidos pela ausência dos raios de sol. Ou do amor. Afasta as mãos pesadas de seus castigadores. Ilumina ainda o dia dos funcionários que atuam em ambientes corporativos “pesados”. Não deixe que eles se transformem em seres humanos tão humanos quanto uma mesa de mármore.
Passeia teu olhar pela cidade suja, Deus. Pousa Tua mão sobre a cabeça daquele que compra veneno de rato. E para os que buscam conforto nas linhas do CVV. Olha bem para o rapaz que, vagando sem rumo pela cidade à noite, canta Roberto Carlos com a voz triste. E chora de saudade. Coloca suas mãos sobre a vida das garotas que pagam aluguel e a educação dos filhos vendendo seus corpos ou dançando nua nos balcões dos bares mais sujos da Lapa. Cuida das esposas infelizes que desejavam ser poderosas mulheres de negócios, mas que por uma infelicidade da vida, não conseguiram concretizar o sonho. Olha pelo cantor do barzinho da Sé, que roda a metrópole com seu violão nas costas. Pelos homens que rasgam lixo em busca de um pão esfarelado.
Deita teu perdão sobre os usuários de drogas da cracolândia. Os habitantes das favelas, tão discriminados e marginalizados pela sociedade do asfalto. Põe Teu olhar mais bondoso sobre os homossexuais, discriminados pelo amor – ou falta dele. Mas sobre as pessoas más, mentirosas, derrama tua mão impiedosa, Senhor. Protege a humanidade. Venda os estupradores, oportunistas e bandidos. Já para nós, que nos esforçamos diariamente para obter algum alento, envia teu espírito luminoso. Sorri para os idosos no asilo. Põe uma luz na vida das pessoas agredidas pelos pais, filhos e outros tantos marginais. Sorri para mim, Senhor. E desperta.
Amanda Campos
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