
Deitar pra dormir se tornou uma tortura. Não que eu tenha algum problema com a porcaria da lâmpada queimada do meu quarto - que estranhamente ninguém consegue consertar- ou com o barulho das unhas da Nina, minha gata, sob a porta. O lance é que a lembrança da cor daqueles olhos não me deixa pegar no sono serenamente, como qualquer pessoa normal. É eu sentar na cama para acertar o despertador ou simplesmente abrir o guarda-roupa para pegar os lençóis que o filme de nossas vidas começa a rodar.
Não que eu esteja fazendo drama sobre um romance que não tem mais razão de ser - e que mal teria se eu o fizesse? Ainda assim, a lembrança daquela porcaria de homem não me larga nem quando fecho os olhos. O ruído do silêncio impera no quarto, no corpo, na alma e impregna em todos os cantos da cama. E aí a ladainha começa: a porcaria do coração dispara, os calafrios correm loucos pela minha espinha dorsal e as borboletas voltam a jogar futebol no meu estômago.
A situação é tão cansativa que não tenho mais forças para lutar contra ela. Ando meio cansada de encenar a moça feliz e forte que consegue conviver com o amor. Tenho medo de me perder num personagem de sorriso expressivo e ganhar um de olhos distantes. Penso seriamente em armar um plano para acabar com a raça de todos os casais lindos e felizes que me aparece pela frente. Isso é normal? Hein? Tô ficando maluca, não estou?!
Coisa chata andar pela rua e ver seres humanos de dedos entrelaçados e carinhos explícitos! Já falaram pra eles que amor acaba? Que ele NÃO É suficiente para manter um romance? Preciso ocupar a mente e começo a pensar na balada. Enquanto escolho o vestido mais curto, o salto mais alto e a melhor maquiagem, olho pras paredes do quarto e debocho. Cadê ela? Cadê a melancolia de sempre? Hoje eu escapo da senhora! Desta vez você não vai sugar minhas alegrias e me deixar com a sensação de que eu tenho as piores qualidades do mundo.
Daí eu chamo umas amigas pra arrasar na pista de dança. Daí rebolo olhando de lado para saber quem vai chegar em mim primeiro. Daí me preparo para rir com o sonoro “não” que distribuirei na noite. E bebo até começar a rir da luz néon que, estranhamente, só aparece pra mim. Daí eu sento a bunda no banco do passageiro e volto pra casa com os ouvidos zunindo, o estômago na sola do pé e o pensamento vago, sem condições de discutir a relação com a minha companheira melancólica de todas as horas.
Amanda Campos
Muitas vezes eu sinto saudade daquelas noites de domingo quase cotidianas, que não se repetem mais. Então eu me dou conta de que as pessoas que fizeram esses momentos serem tão especiais já não existem. Elas se transformaram em outras pessoas, que eu desconheço. O que fica então são os sonhos e os planos que um dia poderiam ter se tornado verdade, mas que, devido às voltas da vida, deixaram de fazer sentido, enfim.
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