terça-feira, 1 de junho de 2010

Croniquinha


Depois que fiz as malas

Depois que arrumei as malas, o mundo inteiro me sorriu. E assim como a bagagem, me senti inteiramente pronta para conhecer outros lugares e reencontrar pessoas. Nesse breve momento entre dobrar as roupas e decidir quais iriam comigo, percebi que a alegria e paz eram tudo o que a vida queria me mostrar e, sem querer ver, amarguei uns maus bocados.

Pela parede do quarto, junto ao mural de fotos atualizadíssimo, observei cada rosto nas imagens e, repentinamente, fui tomada por um acesso de alívio grande, quase triste. Sabe aquela pontinha de descontentamento que às vezes nos toma na manhã de segunda-feira?

Após colocar a bagagem no canto do quarto, talvez tenha aprendido uma nova filosofia de vida. Ainda não sei se existe algo mágico em se colocar para fora de casa por alguns dias, mas ando carregando comigo um sentimento genuinamente brilhante desde o dia em que comprei aquelas passagens.

Separei vestidos, saias, shorts, blusas e calças. Separei também meu melhor sorriso, meu olhar mais observador e abri o coração para caber, em um único músculo, os sentimentos mais bonitos. Juntei e coloquei tudo no cantinho perto da sacola de sapatos ali, embaixo da escrivaninha, e decidi estar preparada para tomar banho de mar, dançar, caminhar ou simplesmente sentar na calçada e tomar um delicioso sorvete de coco (se os de lá forem melhores do que os daqui, claro)

Me olhando no espelho, percebi que as olheiras roxeadas sumiram há algum tempo e enxerguei, finalmente, o brilho que tanto as minhas amigas falavam em meu cabelo – Michele, Ana, Renata, Suzi, Barbara, Mara, amo vocês!

Observando meu reflexo, cheio de presilhas com flores, reparei que não preciso mais de revista, terapeuta, e-mails e livros de auto-ajuda para entender o valor que tenho. Hoje eu mesma consigo compreender, de uma vez por todas, o que tantas pessoas andaram me falando nos últimos tempos: por trás do ar de menina, existe SIM uma mulher forte. E esse não é um defeito que precisa ser administrado: é minha maior qualidade.

Acreditar nas pessoas, nas coisas e acima de tudo, em mim mesma, já não é uma ação “fora do comum”. E precisei me afastar das pessoas e do que era supérfluo para entender isso. Entender que dentro de mim mora uma força inesgotável de coisas boas (será que já posso escrever um livro sobre o assunto?!). E foda-se quem pensa o contrário!

Depois de tantos porres, crises de existência, litros de lágrimas e pesadelos, passar uma borracha no passado e fechar o zíper da mala nem é tão difícil assim. E aí, quando a gente menos espera, numa terça-feira chuvosa e fria, quando torce o pé enquanto atravessa o posto de gasolina cheio de frentistas ou vê os mecânicos correrem até a calçada para te chamarem de “princesa”, alguém olha para você no meio do expediente e menciona, em alto e bom som, como o simples fato de você sorrir torna o dia dos outros mais feliz.

Amanda Campos

Um comentário:

  1. Adorei!
    Principalmente a parte em que sou citada!
    É simplesmente e-m-o-c-i-o-n-a-n-t-e!
    Amo vc! (:

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