quarta-feira, 14 de abril de 2010

Croniquinha

Teatralizando



Acho que deixei cair alguma coisa enquanto ensaiava a cena desta semana. Tenho dúvidas se deixei para trás, entre um término de apresentação e outro, o orgulho que costumava carregar enquanto as cortinas não se fechavam. Essa história já começou torta mesmo, escrita por autores inexperientes sem a veia artística do restante da companhia.

Já sem fôlego, nós, protagonistas, deixamos o talento sentimental de lado para recorrer às antigas máscaras teatrais. No meu rosto, a da alegria é tristemente exposta enquanto, no teu, o mesmo sorriso se tornou indispensável. É bom ter uma camada de gesso na cara para proteger o público da nossa tristeza.

A voz quase não sai mais porque a lembrança do seu sorriso, cabelos e frieza ainda me sufocam. Incapaz de ser aquela atriz inteira, saio de cena perdida. Você ainda continua tão livre que chega a doer. E contracena com atrizes experientes enquanto me mantém na coxia, parada.

Caminho por este palco inchada, cheia de emoções prontas para serem distribuídas aos espectadores. Mantemos a prosa sem poesia para que a rima não torne piegas esta história. Uma história que começou com a necessidade de se tornar inteira, e terminou pelo mesmo motivo.

Você me dedica uma nova cena favorita de palavras sem teor raramente sentimental. E mesmo assim, sou amparada pelo ceticismo do narrador. Uma redação com margem, tamanho e estilo colocados especialmente para você. Um diário sem limites para mim. Você continua vagando por caminhos desconhecidos. Eu fico por aqui. Você continua encenando sua história errônea, sem palavras, títulos e direção. E a minha companhia continua sem ator principal.


Amanda Campos

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