
Desesperador
Quando eu comi a barra de chocolate branco inteira, percebi que já havia começado. Mais tarde, na segunda, eu já queria vomitar e me veio a certeza. Conheço de longe, ou de perto, a tensão: é a vontade de comer sem ter fome. É estar inflada demais pra se saciar. Eu sei, não faz sentido e é bem bobo, mas nesses casos só passa líquido, e quando passa. É a esquizofrenia de novo. A tristeza misturada com a ansiedade.
Mas decidi que não. Que dessa vez não ia acontecer. Tudo de novo? Não mesmo. Então peguei meu celular, olhando ao redor da sala, coloquei os óculos vermelhos e, mordendo o lábio inferior, deletei seu número. Deletei as mensagens de texto também. E deletei você de tudo que me informa da sua vida e do lugar mais difícil de todos: do computador. Mas quando cheguei a esse estágio, fiquei mal. Revi seu sorriso, cabelos, olhos e deletei. E deletei o mundo. E deletei aquela nossa explosão cósmica.
E nada adiantou, ainda. Porque minha mãe comprou aquele maldito sabonete Dove que impregna na pele apesar dos perfumes e cremes que uso, e isso me lembra seu cheiro. Então eu teria que me deletar. Mas complicou ainda mais. E é por isso que escrevo isso da minha mesa do trabalho enquanto deveria terminar minha matéria sobre o especialista prussiano que descobriu a trombose venosa.
Enquanto isso, a vida ultrapassa a gente só porque esses pequenos momentos de amor nos congelam. Você dormia com uma camiseta cheirosa e era a pessoa mais bonita que eu já vi dormindo. E eu ainda tenho a sensação de sentir aqueles leves espamos que seus dedos da mão fazem quando você está pegando no sono, enquanto você me abraçava. E poucas coisas são tão claras como isso que percebo agora: você é tão bonito que eu tenho esse riso congelado no meu cérebro mesmo quando eu vejo outros sorrisos bonitos. Eu queria tanto parar com essa vidinha e ter um amor pra vida inteira. Mas...e mas, e mas, e mas.
E é isso. Agora é suspirar feito besta, vasculhar meus celulares e e-mails e parecer forte o bastante para que você não perceba o quanto eu ainda gosto de você. E como você fica, mesmo sem imaginar, desafinando meu cérebro consertando tudo dentro da minha imaginação. E eu fico contando nos dedos o tempo que falta pra eu viajar e esquecer de vez que você existe. Se é que eu vou conseguir esquecer que você e os cachos do seu cabelo existem. Você não é nada dessas coisas que a gente separa numa caixinha da mente pra continuar arrumando o resto. Então o que é? É isso: o encantamento puro com um pouco de dor, porque até a falta de dor tem muito de dor. É aquela parte incômoda e doce da minha vida. E isso ainda é desesperador.
Amanda Campos
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