
Mais um dia
Hoje eu ouvi de novo que deveria me conter e não correr mais atrás de você. E encarei a ação como se fosse a coisa mais simples do mundo. “Segura esse coração aí, minha filha! Seja forte. Se ame, valorize...” blá blá blá. Me segurei. E descobri que não há nada mais doloroso neste mundo do que segurar os próprios instintos. Mais do que nos outros dias, hoje eu gostaria que este texto - que na verdade não é um texto, já que sou uma mulher forte o bastante para não escrever sobre isso – personificasse um abraço e beijo meu. Gostaria de escrever tanta coisa, mas nem vou.
Não quero que você saiba o quanto agradeço pela sua preocupação com as pessoas que ama, sua responsabilidade, paciência e afeto com (algumas) delas. E eu não vou dizer que gosto disso em você mais do que de todo o resto. E que SEMPRE gostei muito disso em você e que, infelizmente, ainda gosto. Esperava que você jamais duvidasse disso. E se algum dia duvidasse, como aconteceu comigo há um tempo, talvez se convencesse que eu sempre te amei dessa maneira desenfreada. Mas sincera.
Estava lembrando daquele domingo quando estávamos na sua casa, na sua cama. Você parou pra me olhar com aqueles seus olhos enormes e disse que era apaixonado por mim. Eu não consegui responder nada naquele dia. Fiquei meio tonta olhando pra você, sem saber direito se estava sonhando e me perguntando se você também ouvia o besta do meu coração pulsar tão forte que quase estremeceu o mundo.
Era mais ou menos o que acontecia comigo quando eu estava com você. Um turbilhão de sentimentos desenfreados, todos de uma vez e ao mesmo tempo. E eu sem saber lidar direito com eles. Às vezes tudo saía perfeitamente bem. Às vezes eu te chamava carinhosa e te abraçava apertado. Às vezes eu gritava, chorava e ficava extremamente irritada com você. Com a mesma intensidade. Com a mesma paixão desenfreada. Com a mesma inocência daqueles que amam sem lembrar o quanto o amor ás vezes dói.
Estamos separados e acabei percebendo diversas coisas. Entre elas, que você quase nunca se abalava. Você quase sempre era aquela pessoa calma que me pegava pela mão quando eu queria ir embora e me apertava demorado quando eu teimava em chorar no meio de uma discussão. Às vezes acho que ainda existe essa reciprocidade. Que as coisas são como naquele domingo, onde um conseguiu dizer o que sentia e o outro ficou calado, com medo. Ás vezes não. As pessoas não acreditam mais na gente. Isso me dói um bocado.
São muitas saudades. Ainda estou tentando lidar com elas da melhor maneira possível. Queria te comprar um presente. Queria fazer um cartão fofo com formas geométricas e fotos. Reunir tudo num pacotão e deixar na sua porta, mas percebi que não dá mais para eu me personificar em sua vida sem que você me abra a porta da frente. Na verdade, até comprei o presente, o pacote, o material para o cartão e pensei em cada detalhe. Mas não vou te presentear com todo o carinho que eu guardo aqui comigo. Não posso mais fazer isso comigo.
Comecei a achar que esse amor era coisa de quem não tinha nada para fazer. Eu só o sentia porque estava infeliz no meu emprego chato. Só por isso. Saí, afinal, do emprego chato. Amor é coisa de gente “firma” e agora que eu mandava na minha vida, poderia, finalmente, mandar esse amor embora. Tchau, coisinha besta.
Nada feito. Só piorou. Acordava e ia dormir com você engasgado aqui. Ficava inconformada. Mas aí concluí: amor é coisa de diabo. Fui procurar Jesus. Depois de dez cultos e de começar a ler a bíblia, achei que ficaria tudo bem. Ficou nada. Eu só parei de sonhar que botava fogo na sua casa ou que arrancava os olhos de todas as mulheres do mundo. Parei, talvez, de odiar o amor. Mas o amor, na verdade, ficou lá. Duro que nem pedra. Daqueles que não vão embora nem com reza brava.
Amor adolescente, pensei. Com certeza, se eu virar mulher, esse amor bobinho passa. Tratei de virar logo uma mulher. Quem sabe lendo livros melhores, pagando conta e refletindo sobre meus atos esse amor não se mudava de mim? Nada feito. Livros novos, eventos profissionais, novas contas pra pagar. E o mesmo coração idiota. O mesmo amor de sempre.
Aí veio a idéia brilhante. Será que se eu mergulhasse de cabeça nesse amor, não me curava? Será que se eu parasse de sentir tudo isso e enxergasse de perto como o sentimento é ridículo eu não me curava? Não. Definitivamente, só piorou. De frente para ele e suas constatações tão absurdas a respeito de tudo, só consigo sentir ainda mais amor. E quanto mais motivos para não sentir, o amor cresce.
Irresponsável. Careta. Então cansei. Taí. O amor venceu. E eu acabo de descobrir, simples assim, a única maneira de me livrar desse sentimento: aceitando ele, parando de querer ganhar dele. Amo você mesmo, e acho que pra sempre. Mas não deixo mais de viver minha vida por causa desse amor. Vá à merda, amor! E vá à merda você também!
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